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domingo, 1 de março de 2009

O Crime do Padre Amaro

Resumo do livro O crime do Padre Amaro (Eça de Queirós)

O Padre Amaro torna-se sacerdote em Leiria, província de Portugal, por interferência do Conde de Ribamar, cuja mulher é sua parente. Lá hospedava-se na casa de D. Joaneira, amante do Cônego Dias, mãe de Amélia e amiga de algumas beatas velhas, ignorantes e supersticiosas, que regularmente visitam a residência. Forma-se nelas grupos de mulheres e clérigos, que se divertem em longos serões nos quais as modinhas tocadas por Amélia ao piano, os jogos, as conversas fúteis e os mexericos puritanos e moralistas são as grandes atrações. João Eduardo, namorado de Amélia pouco querido por ela, também participa dos serões, até incomodar-se com as intimidades entre ela e o padre. De fato, desde a chegada de Amaro ambos se sentem atraídos, e o Padre se encoraja cada vez mais em cortejar a rapariga, movido por intenso desejo de possuí-la. João Eduardo escreve um texto num jornal de oposição, assinando-se apenas “um liberal”, em que critica violentamente a corrupção do clero, e exemplifica suas críticas mencionando comportamentos devassos dos religiosos freqüentadores da casa de Amélia. Esse incidente faz com que Amaro, preocupado com sua reputação mude de residência, afastando-se da rapariga, o que só lhes intensifica o sentimento. Quando um dos padres denunciados no artigo, o vingativo padre Natário, descobre a identidade do difamador, João Eduardo, que marcara o casamento com Amélia, é enxotado do vilarejo, sem noiva, sem emprego e sem respeitabilidade.

Amaro, então, triunfante, respeitado por todos como um santo, um virtuoso, consegue um espaço para encontrar-se com Amélia e uma história para encobrir seu amor: ajudado por Dionísia, uma ex-cortesã, transforma em alcova a casa do sineiro, ao lado da igreja, e justifica de duas maneiras as visitas regulares de Amélia ao lugar: para tio Esguelhas, o sineiro diz que a está preparando para a vida religiosa, em segredo, e para a mãe, as beatas e os outros padres, que ela está virtuosamente ensinando a ler e a conhecer a doutrina cristã a Totó, uma menina entrevada e considerada louca, filha do tio Esguelas.

Amélia e Amaro vivem sua paixão voraz sem incidentes maiores, apesar da fúria de Totó, que tem aversão a Amélia e os denuncia ao Cônego Dias. No entanto, quando o velho descobre a trama e acusa Amaro, este revela que sabe de sua relação com D. Joaneira, e desde então tornam-se cúmplices. Um incidente muda o rumo dos fatos: Amélia engravida e Amaro encarrega Dionísia de procurar João Eduardo, para casá-la com o rapaz. Não o encontrando, elabora mais um plano maquiavélico: faz com que D. Joaneira vá com o Cônego para a praia, enquanto Amélia, a pretexto de ajudar D. Josefa, a irmã do Cônego, que adoecera, viaja com ela para um povoado, onde poderá ter a criança em segredo. Lá a rapariga por pouco tempo se afastar do Padre, influenciada por um sacerdote a quem se confessa e que procura salva-la, apontando a crueldade e o egoísmo de Amaro e tentando convencê-la a se casar com João Eduardo, que estava de volta. Entretanto, Amaro com facilidade a seduz para si novamente. Na ocasião do parto, entrega a criança a uma mulher “tecedeira de anjos”, isto é, que mata os bebes que recebe, e Amélia, ressentida com a separação do filho, sofre uma série de convulsões e vem a falecer. Amaro imediatamente embarca para Lisboa, onde tempos depois, em companhia do Conde Ribamar, reencontra o velho Cônego Dias, justamente quando a cidade está perplexa com as notícias sobre os acontecimentos sangrentos da Comuna de Paris.

O Conde comenta com os padres, na cena final do romance, sobre a paz, a prosperidade e o contentamento de Portugal, que a seu ver desperta inveja à Europa, dentre outras razões por ter “sacerdotes respeitáveis” como aqueles a quem lisonjeia.

O Primo Basílio

Resumo do livro O Primo Basílio (Eça de Queirós)

INTRODUÇÃO:
A Revolução Industrial iniciada no século anterior, na Inglaterra, provocou uma industrialização acelerada em vários países. As cidades cresciam rapidamente, camponeses transformavam-se em operários urbanos e a vida cultural diversificava-se. Londres, Berlim, Viena e principalmente Paris eram o centro de um vigoroso processo criativo. Enquanto isso, Portugal mantinha-se apegado às glórias do passado. O pais não chegou a desenvolver uma burguesia empreendedora e capitalista, nem uma elite intelectual significativa que fizesse desenvolver as artes e as ciências. A elite de Lisboa vivia apegada às glórias coloniais passadas. De costas para o futuro, vivia centrada em sua vidinha sem perspectivas. A escola realista propõe uma criação literária apoiada na análise objetiva da realidade. O narrador vê os acontecimentos com neutralidade e domina as informações sobre o contexto o qual o enredo acontece. O Naturalismo traz uma preocupação a mais: tenta introduzir o método científico na obra literária e, com isso, intensifica e amplia as tendências básicas do Realismo.

POSICIONAMENTO DO AUTOR EM RELAÇÃO AO TEMA:
Eça de Queirós faz parte de uma geração de jovens intelectuais, centrada em Coimbra, que reagem contra o atraso do país. Eles criticam o Romantismo como um sinônimo desse atraso. E com seus Realismo e Naturalismo pretende incorporar à Literatura os métodos científicos próprios das ciências naturais. O autor disseca essas deformações da sociedade lusitana e explica sua fonte de pesquisa e inspiração neste trecho de uma carta enviada a Teófelo Braga “Mas a verdade é que eu procurei que os meus personagens pensassem, decidissem, falassem e atuassem como puros lisboetas, educados entre o Cais do Sodré e o Alto da Estrela; não lhes daria nem a mesma mentalidade, nem a mesma ação se eles fossem do Porto ou de Viseu; as individualidades morais variam de província a província”. Eça também observa que não ataca a família enquanto instituição, mas sim “a família lisboeta, produto do namoro, reunião desagradável de egoísmo que se contradizem, e, mais tarde ou mais cedo, centro de “bambochata”. O Primo Basílio apresentava-se como uma lente de aumento sobre a intimidade das famílias “de bem” de Lisboa da metade do século XIX. Representa um dos primeiros momentos de reflexão sobre o atraso da sociedade portuguesa em um mundo profundamente transformado pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento tecnológico.

PERSONAGENS LUÍSA:
Na descrição que o próprio Eça de Queirós faz na carta a Teófilo Braga, Luísa é “a burguezinha da Baixa” (Lisboa, Cidade Baixa): urna senhora sentimental, sem valores espirituais ou senso de justiça. É lírica e romântica, ociosa e nervosa pela falta de exercício e disciplina moral”. Luísa é esposa de Jorge, engenheiro de minas que ela conheceu após o abandono e rompimento (por carta) do noivado com o primo Basílio. Sua vida tranqüila de leitora de folhetins é alterada pela viagem do marido e o retorno do primo a Portugal. O motivo que a leva a se entregar a Basílio, de acordo com as reflexões de Eça, nem ela sabia. Uma mescla da falta do que fazer com a “curiosidade mórbida em ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico…”

BASÍLIO :
O primo e ex-noivo que retorna a Portugal na ausência do marido de Luísa é para Eça de Queirós “um maroto, sem paixão nem a justificação de sua tirania, que o que pretende é a vaidadezinha de uma aventura e o amor grátis”. Malicioso e cheio de truques para atrair a amante explorando a sua vaidade fútil, Basílio compara a fidelidade conjugal a uma demonstração de atraso das mulheres de Lisboa frente aos hábitos supostamente liberais e modernos das senhoras de Paris - todas com seus amantes, conforme assegurava o primo. Desprovido de charme ou atributos mais sedutores, é o mais cínico dos personagens “conquistadores” de Eça de Queirós. Em momentos de maior dramaticidade, quando começam a enfrentar as conseqüências do adultério, o cinismo de Basílio fica mais evidente: ele pensa apenas que teria sido mais vantajoso trazer consigo uma amante de Paris.

JULIANA :
A criada Juliana faz desmoronar o mundo de Luísa ao chantageá-la com cartas roubadas. É a figura que aparece com alguma intensidade interior, destoando um pouco das razões fúteis que movimentam os demais personagens. Ela se conduz pela revolta (não suporta sua condição de serviçal), pela frustração (fracassou na tentativa de mudar de vida), pelo ódio rancoroso contra a patroa (ódio, na verdade, contra todas as patroas que a escravizaram por 20 anos). Assim como Basílio, Juliana tentará tirar proveito circunstâncias, reunindo provas do adultério para fazer chantagem. Mas ela pretende mais do que dinheiro - que exige sem sucesso de Luísa; ela quer a desforra. E os recursos que utiliza levarão o definhamento físico e emocional da patroa, até o desfecho da história.

JORGE:
Todo o drama iniciado com o roubo das cartas se deve à tentativa de Luísa de impedir que Jorge saiba do adultério. Com aparições, no romance, sua presença se faz sentir pelo papel social que representa: é o marido. E a forma como poderá reagir à infidelidade, é especulada pelo narrador através, de outro personagem, Emestinho Ledesma, autor medíocre que prepara uma peça teatral sobre um caso de adultério, pede a Jorge uma opinião sobre o final de sua obra. Um marido deve matar a mulher adúltera? PERSONAGENS SECUNDÁRIOS Os personagens secundários completam o quadro social lisboeta. O Conselheiro Acácio, freqüentador do círculo próximo de Luísa, um dos mais citado e conhecido personagem de Eça, é o intelectual vazio. Sua habilidade em dizer o óbvio com empáfia deu origem à expressão “verdades acacianas”. Joana é a cozinheira que enfrenta Juliana por dedicação à Patroa; Dona Felicidade é a “beatice parva de temperamento irritado”. E também há, Sebastião (o bom rapaz), que se propõe a recuperar as cartas tomadas pela criada.

ESTILO E LINGUAGEM:
Notamos que a obra de Eça adapta o texto literário ao ritmo da língua falada. Assim, rejuvenesce a linguagem literária. O autor afasta-se do uso de frases extensas e sobrecarregadas. Esbanja habilidade para expressar-se em seqüências de frases curtas, cheias de ritmos e significados. Usa e abusa da descrição minuciosa, quase obsessiva, do espaço físico e da sociedade, explicando cada personagem a partir de seu contexto socioeconômico.

CARACTERÍSTICAS REALISTAS PRESENTES NA OBRA:
Segundo palavras do próprio autor, o Romantismo “… em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social. (… ) Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica”. Percebemos que em O Primo Basílio, o homem é observado como um animal que tem o comportamento determinado pelo meio ambiente, pelas circunstâncias que o pressionam e hereditariedade, caracterizando o Determinismo. Os elementos “científicos” tornam-se mais importantes do que a interioridade ou subjetividade dos personagens. A origem social, educação e influências externas ganham ênfase determinantes. Novos recursos são incorporados à linguagem, como termos e explicações científicos para expressar a fragilidade da condição humana, com suas doenças e seus vícios. A combinação da leveza e do brilho das descrições com o relato grosseiro da realidade é outra marca estilística de Eça. Ele opõe a expectativa romântica de Luísa e a ironização de suas idealizações ao descrever as atitudes grosseiras do amante Basílio. Bem ao gosto do Naturalismo, compara seres humanos com animais dominados por seus instintos, definindo a criada juliana como uma loba. O plano exterior de O Primo Basílio predomina sobre o plano interior. O exagero descritivo dos ambientes reforça e complementa a fragilidade psicológica dos personagens, que nada têm de admirável. Emoções, sensações e desejos surgem no texto como ações externas ao personagem.

CONCLUSÃO:
Diante do cenário histórico, descrito no início dessa análise, Eça de Queirós publica, em 1878, O Primo Basílio. O livro inova a criação literária da época, oferecendo uma crítica demolidora e sarcástica dos costumes da pequena burguesia de Lisboa. Eça de Queirós ataca uma das instituições consideradas das mais sólidas: o casamento. Com personagens despidos de virtude, situações dramáticas geradas a partir de sentimentos fúteis e mesquinharias, lances amorosos com motivações vulgares e medíocres - tudo isso, ao mesmo tempo em que ataca, desperta o interesse da sociedade de Lisboa. Eça de Queirós explora o erotismo quando detalha a relação entre os amantes. Inova também ao incluir diálogos sobre homossexualismo. O autor, que já mostrara sua opção por uma literatura ácida e nada sentimental em O Crime do Padre Amaro, cria personagens fisicamente decadentes - cheios de doenças e catarros - e de comportamento sexual promíscuo.

RESUMO:
Luísa é uma jovem loira, de grandes olhos castanhos, romântica, sonhadora e frágil; é casada com Jorge, engenheiro de minas, homem de bons hábitos e com algumas posses. Casaram-se meio no escuro; no entanto Luísa dera uma boa esposa, “tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho”. A primeira cena se dá num domingo de muito calor. Estão marido e mulher na sala de jantar: ele anuncia sua próxima viagem a fim de cuidar de negócios no Alentejo; ela, displicentemente, folheia as páginas de um jornal, onde lê a notícia da chegada de seu primo Basílio a Lisboa. Basílio fora namorado da jovem e lhe prometera casamento. Mas, com a falência do pai, o rapaz viajara para o Brasil, onde acabara arranjando fortuna com a especulação da borracha. Fixara residência em Paris. Luísa recebe uma carta de Basílio rompendo o namoro e, depois de um ano de silêncio, casara-se com Jorge. Jorge parte. Alguns se passam e Luísa está enfadada; o calor é imenso e suas leituras não a consolam. Está se vestindo para ir à casa de uma amiga, a mal falada Leopoldina, quando recebe a visita do primo. Basílio não se arrepende de tê-la visitado, vendo aí uma oportunidade para um caso amoroso. Luísa por sua vez, fica embevecida com o primo, admira-lhe a nova vida, encanta-se com suas aventuras e viagens. Tudo o que ele fala serve para excitar a imaginação da moça; ouvindo-o, ela vive como em um romance. Basílio começa a visitá-la freqüentemente, dando muito o que falar à vizinhança e instigando a curiosidade e a maledicência de Juliana, a criada de dentro de casa. Por sua formação, Juliana fica à espreita, esperando uma oportunidade para despejar seu ódio não só contra a patroa, mas contra a vida que a maltratara. Dela exala revoltada amargura de viver: “servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltada a saúde! (…)” Basílio não perde as esperanças de Ter a prima em seus braços; percebendo que a moça era passível de sedução, utiliza-se do pretexto de sua partida para a França, e, uma ocasião, ao despedir-se altas horas da noite, a jovem se entrega a ele. Juliana, desconfiada, só necessitava comprovar suas suspeitas. Certo dia Luísa recebe a visita de D. Felicidade, justamente quando estava a escrever uma carta extremamente comprometedora. Perturbada com o fato inesperado, joga a carta no lixo. a criada recolhe o papel amassado e o guarda. Quando Luísa vai procurar a carta, ela alega que já havia despejado o lixo. Depois do episódio, Luísa fica apreensiva e só se reanima quando recebe uma carta de Basílio, marcando um encontro no “Paraíso”, lugar afastado onde poderiam estar sossegado. O “Paraíso” constitui-se em uma grande decepção para Luísa, pois ela o imagina idilicamente e só encontra um aposento sórdido. Juliana põe-se mais servil, enquanto os comentários dos vizinhos prosseguem. Sebastião, bom amigo de Jorge, após ter viajado por duas semanas, ouve aturdido os falatórios. O primo não voltara à casa de Luísa, e ela saía todos os dias, ficando fora tardes inteiras. Sebastião, preocupado com a reputação da casa, tenta conversar com a esposa do amigo. Enquanto isso, Juliana, começa a perseguir mais provas do adultério, por isso rouba de Luísa a chave do cofre de correspondência. Luísa vai-se envolvendo em mentiras. Certa vez, a caminho do “Paraíso”, encontra Ernestinho, íntimo da casa, autor teatral que estava escrevendo uma peça justamente sobre uma mulher adúltera. Luísa escapa desajeitada e começa a refletir sobre seus atos. A indiferença de Basílio é nítida. Ele a ama menos… “Já não tinha aqueles arrebatamentos do desejo em que a volvia toda numa carícia palpitante, nem aquela abundância de sensação que o fazia cair de joelhos com as mãos trêmulas como as de um velho! … Já não se arremessava para ela, mal ela aparecia à porta, (…). E parecia, Deus me perdoes, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir… E pensava em Jorge, para quem ela era decerto a mais linha, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!… E já pensava um pouco que sacrificara a sua tranqüilidade tão feliz a um amor bem incerto(…)!” Águas passadas. As brigas do casal adúltero, as insatisfações da moça não passavam de meras rusgas e reflexões. Luísa voltava dócil e fogosa aos braços do amante. Os encontros no “Paraíso” continuavam. Outro incidente, desta vez com o Conselheiro Acácio, que a encontra e a acompanha, fazendo-a perder o encontro com Basílio. Ao voltar para casa, meio histérica, vê que Juliana não arrumara o quarto e passa-lhe uma descompostura. A criada então confessa que nem todos os papéis foram para o lixo, que ela tinha a carta supostamente perdida. Luísa desmaia. Ao retornar a si, acredita estar perdida. Pensa em fugir com Basílio para Paris, como ele já havia proposto tantas vezes; vê-se nos braços do amante, com uma nova via, repleta de sensações. Mas Basílio recusa-se a partir com ela; foge sozinho, simulando um telegrama urgente que pedia sua presença em Paris, a fim de resolver negócios. Sozinha, desamparada e à mercê das chantagens da criada, Luísa passa a viver uma vida miserável. Inverte-se a situação na casa: Juliana começa a ter as regalias da patroa. Jorge retorna e estranha o relacionamento da esposa com a empregada que tanto a desgostara outrora, ela tenta explicar essa mudança dizendo que a criada cuidou dela, com muita dedicação, em um momento que se encontrava doente. Luísa tenta conseguir os seiscentos mil réis que lhe pede Juliana, a fim de terminar com a chantagem. Não tem como consegui-los, a não ser tornando-se amante do banqueiro Castro, que há muito a adorava; Leopoldina arranja-lhe um encontro com o ricaço, mas Luísa não consegue entregar-se a ele. A situação fica insustentável, à medida que Jorge vai percebendo os disparates da criada. Desesperada, recorre a Sebastião, contando-lhe a situação em que se vê envolvida. Sebastião, sensibilizado com tudo por que Luísa tem passado, recupera as cartas. “Juliana então alucinada de raiva, com os olhos saídos das órbitas, veio para ele e cuspiu-lhe na cara! Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para trás, levou com ânsia as mãos ambas ao coração e caiu para o lado, com um som mole, como um fardo de roupa.” Luísa adoece de uma febre nervosa, como conseqüência do medo de ter uma morta em casa. Juliana é enterrada numa vala comum. Tomam nova criada. Luísa começa a restabelecer-se, quando chega uma carta escrita por Basílio. Jorge, curioso, lê o texto revelador e em um lance descobre a traição da mulher. “(…) Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que minha partida fosse motivada por negócios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, todas as ilusões sobre o amor, porque foi realmente quando saí de Lisboa que percebi quanto te amava, e não há dia, acredita, em que me não lembre do Paraíso (…)”. Jorge, então, mostra a carta à esposa convalescente. Num gesto trágico, Luísa cai desmaiada; as febres voltam e logo sobrevém a morte. No final do romance, Eça registra a idiotizada figura do Conselheiro Acácio, envolto no dever de escrever um necrológico para Luísa, e a futilidade do amante ao saber da morte da prima.

O Primo Basílio (versão 2)

Resumo do livro O Primo Basílio (Eça de Queirós)

Eça de Queirós foi um dos principais responsáveis pela introdução do realismo em Portugal, e O Primo Basílio foi um dos dois livros (sendo o outro 0 crime do Padre Amaro, também dele) que mais colaboraram para desbancar o romantismo de Camilo Castelo Branco ou Júlio Dinis e instalar em Portugal novos padrões de arte e de visão da sociedade e da vida.

O livro é um delicioso quadro da classe média de Lisboa, com inesquecíveis tipos caricatos, como o Conselheiro Acácio e Dona Felicidade, e uma história ao mesmo tempo banal e envolvente. o primo basílio resumo o primo basílio Luísa vive um casamento morno com seu prosaico marido, o engenheiro Jorge, e se intoxica de fantasias românticas, hauridas em livros ou sugeridas nas conversas com sua “devassa” amiga Leopoldina. No meio de um verão sufocante, durante o qual Jorge faz uma viagem de trabalho, Luísa recebe a visita de um primo rico, seu ex-namorado, agora vivendo em Paris, cidade idealizada nos sonhos românticos da moça.

Uma velha empregada, a ressentida Juliana, a tudo assiste cheia de intenções de vingança. Esses são os ingredientes com que o estilo irresistível de Eça de Queirós compõe a trama do romance. Disso resulta uma crítica demolidora da moral pequeno-burguesa. A aventura “romântica” de Luísa é vista sem nenhum romantismo; ao contrário, é desnudada pelas lentes implacáveis do realismo, que, nessa época, Eça abraçava com fervor, utilizando-o como método de análise para elaborar um amplo e devastador quadro crítico da sociedade portuguesa. A força de 0 Primo Basílio, contudo, não provém de sua trama (que Machado de Assis, em crítica publicada na época do lançamento do livro, demonstrou ser defeituosa), nem de suas intenções de saneamento social, mas sim do poder com que Eça compõe as situações e do encanto do seu estilo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Os Maias

Resumo do livro Os Maias (Eça de Queirós)

Em junho de 1888, os livreiros portugueses começaram a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edição de Os Maias. É tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer então naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e não muito lido? Foi uma temeridade, mas à audácia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crítica. E o livro do desconfiado Eça de Queirós transformou-se, desde então, num sucesso de vendas. E assim é (ou voltou a ser) hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, é verdade, mas bastou que a televisão fosse buscar inspiração (palavra perigosa) no velho romance, para que as novas reedições sumissem, recém-chegadas às livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano. Eça de Queirós foi impreciso e modesto ao dar a Os Maias o subtítulo “episódios da vida romântica”. Na verdade, o seu mais famoso romance é uma tragédia, tal como a entendia Sófocles quando, já na maturidade, compôs o seu Édipo. Uma tragédia burguesa, mas quand même uma tragédia, pois que lá está a grave transgressão moral, cometida em completa inconsciência por seus dois personagens centrais - Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Da Maia, ambos; irmãos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trágicos. Invejo quem agora, instigado pela minissérie, vai ler esse livro pela primeira vez. Terá prazer único e irreproduzível. As releituras que hão de vir, mais tarde, servirão de consolo, mas não de substituto. Esse prazer estará certamente na elegância barroca da forma e no desenvolvimento astucioso do entrecho. Mas estará também, ou principalmente, nos admiráveis retratos que Eça faz de seus tipos principais, com a elegância e a minúcia de um genial pintor romântico, mas com “o seu olho à Balzac”. A começar não por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a “casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875″, que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e que era conhecida como a casa do ramalhete “ou, mais simplesmente, o Ramalhete”. Então, lemos, já encantados: “Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas”. Ai está o cenário da tragédia. O Ramalhete é, pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz. E será no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aos personagens nos quais Eça de Queirós se insinua, para nos falar através de suas muitas vozes. Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A única personagem que o confunde é Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece - e como custa a aparecer! -, “é alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carne”; algumas páginas adiante, Carlos a revê e nota que “os cabelos não eram louros, como julgara de longe, à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa”. Falei de retratos e o mais correto é falar de auto-retratos. Se Fernando Pessoa tinha seus heterônimos, Eça tinha os seus “eus”, como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito se pareciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que “era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes…o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve, aguda e longa”, a reclamar melhores destinos para o seu lamentável país e a cobrar, do neto tão promissor, menos diletantismo e mais realizações. Fala-nos também com as palavras cruéis e desassombradas do neto Carlos, “um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como os dele e mais graves”, e que costumava vociferar: “A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo”. Ao que o avô respondia, já impaciente com esse diletantismo do neto, como se falasse em nome do autor: - Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa! Mas nenhum de seus “eus” foi mais ele mesmo que João da Ega, ou João da Eça, ou o Ega de Queirós, que todos esses trocadilhos, embora fáceis, têm cabimento e justeza. Talvez só o Fradique Mendes se lhe possa comparar, mas esse não vem ao caso, agora, porque não é personagem d´Os Maias. Eram “eus” idealizados e muita vez caricaturados, mas que, no fundo, o reproduziam com verdade e o exprimiam com coerência. Ao Ega, deu-lhe o Eça a existência que gostaria de ter tido: discutido e admirado, com a mãe devota, rica e viúva, a lhe garantir o presente e o futuro, permitindo-lhe desfrutar as sofisticações, as intimidades e os desvelos de uma família de aristocratas, como era a dos Maias; mais alguns amores ardentes e com saúde razoavelmente forte para gozar, sem medos nem cuidados, o prazer das boas comidas e dos bons vinhos, dos conhaques e das águas ardentes, das noitadas com espanholas e das devassidões vespertinas, com amantes de luxo. É conclusão a que se chega no momento em que Eça retrata o Ega - e se auto-retrata: cheio de verve e de irreverência, de frases retumbantes e ditos irônicos, um talento amaldiçoado, temido e exaltado. Vejamos o Ega pelos olhos do Eça: “O esforço da inteligência (…) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito - tinha alguma coisa de rebelde e de satânico”. Ora, se não é esse ou quase esse o retrato do próprio Eça, tal como captado na célebre caricatura que dele fez Rafael Bordalo Pinheiro, então já não sei ver nem distinguir. É ainda o Ega que, em momento de impaciência com a mediocridade e a hipocrisia da sociedade burguesa, e como que falando em nome de seu criador, deixa Lisboa e corre para restaurar-se no interior, lançando a Carlos e a Craft, os dois grandes amigos que o foram acompanhar à diligência, esta frase aterradora: - Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro. Tal como Carlos da Maia, também João da Ega era um diletante. Ambos têm revoltas pouco profundas e de pouca duração. As suas grandes promessas de realização pessoal e de transformação do mundo terminam por desmaiar no culto quase religioso do luxo e do tédio. Passam a representar o que mais incomodava o inconformado Eça: a renúncia e o conformismo. É com mãos hábeis, orgulhosas e brilhantes que Eça os faz florescer em Coimbra, em tempos de sonho e de estudo, a prometer insubmissão e luta. É com olhar de desalento e pessimismo que Eça os deixa vencidos e melancólicos, a “correr desesperadamente pela rampa de Santos”, atrás de um bonde e de um jantar, “sob a primeira claridade do luar que subia”. Tal como o próprio Eça se sentia, Ega e Carlos eram, naquele momento, dois “vencidos da vida”. E assim a tragédia se consuma e nos obriga a repensar o ser humano com inquietação e desconfiança. Lisboa, 1875. A cidade não apenas como um cenário mas como uma personagem, viva, interveniente, testemunha e cúmplice dos acontecimentos.A cidade acorda, o movimento cresce. De entre a multidão que circula vão-se destacando, anunciadas pela narradora, as principais personagens desta história.Mais tarde, ao serão, no interior da casa dos Maias, conhecida como o Ramalhete, reúnem-se alguns distintos representantes da sociedade da época: da intelligentsia à alta burguesia lisboeta, até alguns políticos do constitucionalismo regenerador. Lá estavam, entre outros, João da Ega, amigo incondicional de Carlos da Maia, sagaz e polémico, sempre crítico da mediocridade nacional. Ou ainda Craft, com quem, nessa mesma noite, Carlos da Maia acabaria por negociar uma quinta, nos Olivais. Ou ainda Dâmaso Salcede, pretencioso e burlesco que revelaria, eufórico, como uma das suas recentes conquistas, a aproximação de Maria Eduarda de Castro Gomes, o que não deixara de provocar uma ainda inexplicável irritação a Carlos da Maia. A sólida presença de Afonso da Maia, patriarca da família, constitui, para todos, um valor de referência.Na realidade, Carlos da Maia alimentava já por Maria Eduarda de Castro Gomes uma secreta paixão e não deixava de a visitar diariamente a pretexto de assistir clinicamente a sua governanta inglesa, Miss Sarah.Numa dessas visitas como médico à residência dos castro Gomes, - na rua de S. Francisco - percebe-se claramente a existência de uma reciprocidade de sentimentos, da qual, Dâmaso Salcede acabará inadvertidamente, por ser testemunha, não escondendo a sua surpresa e o seu despeito, que o levara a congeminar uma forma de vingança.Entretanto, Carlos e Maria Eduarda vivem já o seu romance na nova Quinta dos Olivais, comprada a Craft. Assim corre o tempo dividido entre as apressadas idas ao Ramalhete e a clandestina vida nos Olivais. Certo dia, no Ramalhete, Carlos e Ega trocam algumas confidência sobre a vida atribulada do primeiro, que procura esconder do avô a situação familiar da sua amante, conhecida em Lisboa, como a senhora Castro Gomes.Será, pois, com a maior estupefacção que Carlos receberá em sua casa o próprio Castro Gomes que lhe esclarece, com algum acinte, que aquela que todos dão como sua esposa não é senão a sua amante, com quem vive e a quem paga uma existência requintada em troca de companhia. Perante o desespero e a humilhação de Carlos, Ega sugere-lhe que usufrua, como vinha fazendo até aí, desse amor ilegítimo.Porém, a súbita chegada de Monsieur Guimarães vai precipitar o fim da história, ao trazer consigo num pequeno cofre, o espólio de Maria Monforte, mãe de Maria Eduarda, que morrera em Paris. Nesse espólio confirma-se que Maria Monforte fora a esposa que levara ao suicídio Pedro da Maia, pai de Carlos. A tragédia precipita-se - os dois amantes eram, no final, irmãos. Tal revelação levará à morte o velho Afonso da Maia, ao afastamento dos dois amantes, à partida de Carlos para o estrangeiro.Só dez anos depois Carlos voltará a Portugal, reencontrando-se com os amigos de sempre, e sobretudo, com Ega, com quem fará um saldo do passado, carregado de ironia e cepticismo, uma síntese dos seus destinos pessoais e do destino colectivo do país, como nação. Vidas falhadas ou ainda a tempo de apanhar o futuro?